sexta-feira, 21 de novembro de 2014

*Deus e a beleza*

"Deus é como o vento. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. Na flauta, o vento se transforma em melodia. Mas não é possível engarrafá-lo. No entanto, as religiões tentam engarrafá-lo em lugares fechados a que elas dão o nome de 'casa de Deus'. Mas, se Deus mora numa casa, estará ele ausente do resto do mundo? Vento engarrafado não sopra...
Deus é como um pássaro encantado que nunca se vê. Só se ouve o seu canto...

Deus nos deu asas. Mas as religiões inventaram gaiolas.

Tudo o que vive é pulsação do sagrado. As aves do céu, os lírios do campo... Até o mais insignificante grilo, no seu cricri rítmico, é uma música do Grande Mistério.

Reverência pela vida: é a forma mais alta de oração.

Os homens religiosos procuram Deus no invisível e no mundo após a morte. Quando alguém morre, eles repetem como consolo: 'Deus o levou para  si'. Então, enquanto vivo, ele estava distante de Deus? Deus é Deus dos mortos ou Deus dos vivos? Deus não mora no mundo dos mortos. Ele mora no nosso mundo, passeia pelo jardim. Deus é beleza. E se ele ama o que é feio é só para torná-lo belo... Por isso Ele ama os desertos: porque neles se escondem as fontes...
Quer ver Deus? Veja a beleza do sol que se põe.
Quer ouvir Deus? Entregue-se à beleza da música.
Quer sentir o cheiro de Deus? Respire fundo o cheiro do jasmim.
Quer saber como é o coração de Deus? Empurre uma criança num balanço, porque Deus tem um coração de criança."  
Rubem Alves - do livro Perguntaram-me se acredito em Deus